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Ganhe as Ruas, Gregório

J novembro, 2007

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O Blog da Mostra percorreu o roteiro do Audiotour. Na foto, os enormes e esquecidos jardins suspensos da Praça Roosevelt. Engolida pelo Elevado Costa e Silva, a praça é um dos pontos de um mistério policial da cidade.

Para quem estreou o WalkMan nas ruas nos anos 80 (e as fitas K7); ou andou com um DiscMan na mochila nos 90 (e uma penca de CDs); ou caminha hoje com os fones num tocador de MP3, os momentos “videoclipe” com a cidade como cenário é…. (e pra isso o rock é prato cheio), digamos, é… comum.

Nada do videoclipe sem sal de Bittersweet Symphony (1997), da banda Verve, em que o vocalista magricela sai cantando na rua e esbarrando em quem surge pelo caminho. Mas um momento em que é possível até garantir que a cidade casa perfeitamente (ai, juras amor eterno) com o ritmo que pula dos fones para os seus ouvidos.

Talvez um sintoma da fome de imagens “que nos devora”. Como diz o professor Norval Baitello Jr., no belo A Era da Iconofagia, de 2005:  “Vivemos, profundamente, até a última de nossas fibras, dentro de um mundo da visualidade. (…) podemos suspeitar que estamos dispensando os outros sentidos que não a visão. Exemplo disso é o valor do som, tão menor que o da imagem no nosso mundo e no nosso tempo.”.

De qualquer forma, e de alguma forma, quando você menos espera seu corpo “pega pilha”, e lá estão seus olhos no ritmo de um… videoclipe.

Agora o que é andar na cidade no ritmo de uma história? Uma história com começo, meio e fim soprada em seu ouvido por um par de fones? O Audiotour, que a Mostra apresenta no Sesc Consolação até este sábado, dia 1º/12, propõe isso a partir de uma trama policial montada em parceria do grupo argentino BiNeural-Monokultur com o jovem escritor Tiago Novaes.

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Igreja da Consolação. No conto policial de La Culpa La Tiene Niemeyer / A Última Trilha de J.F., uma gravação de áudio é encontrada num dos bancos da catedral. 

Logo de cara dá uma ponta de constrangimento acompanhar uma voz que diz “como” e “por onde” se caminhar. Mas é um jogo. Suspenda a descrença, como diz S.T. Coleridge sobre a recepção da literatura, e a coisa começa: você agora não é mais você, mas Gregório, o assistente de um detetive. 

A trama vai levá-lo – sozinho, só você e os fones – a atravessar parte do centro de São Paulo (Rua da Consolação, Praça Roosevelt, Rua Nestor Pestana, Av. São Luís, Sete de Abril…)  na busca de uma dita Joana F. 

Dá para imaginar o desafio ainda maior que é colocado para quem circula pouco pelo centro de São Paulo. Mesmo um gênio do teatro não conseguiria uma encenação do Caos tão plena quanto o cruzamento da Avenida São Luís com o início da Consolação, Rua Augusta e Major Quedinho. E, de repente, lá está você: ouvindo, pelos fones, informações sobre o próximo passo do mistério enquanto integra, você próprio, o caudaloso trânsito de informações do cruzamento. “Cuidado com os carros, Gregório” – o detetive Guedes, a voz gravada no tocador de MP3 que é entregue no Sesc Consolação, não economiza nesse tipo de conselho.  

Há conselhos ainda como: “Ignore os velhos amigos que encontrar no caminho”. E isso porque é impossível apertar o pause no aparelho de MP3. Reencontrar um velho conhecido pode significar… o fim da linha e de todo o mistério. E aí está o melhor do jogo: olhar a cidade a partir de suas ruas, avenidas, galerias e praças como quem folheia um livro, senta-se na poltrona de um teatro ou acompanha frame a frame uma das milhares de tramas que se costuram e recosturam minuto a minuto dentro dela.   

Gregório ficará sabendo quem é a moça do interior Joana F., quem é Paulo, quem é o mendigo que aponta Niemeyer como culpado entre as subidas da Praça Roosevelt e as galerias da Sete de Abril e então… Bem. O que se tem é um roteiro de suspense e, assim, quanto menos se souber antecipadamente, melhor…

Até porque… Escuta com atenção: a cidade é sua, Gregório.

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“Aí está o melhor do jogo: olhar a cidade a partir de suas ruas, avenidas, galerias e praças como quem folheia um livro, senta-se na poltrona de um teatro ou acompanha frame a frame uma das milhares de tramas que se costuram e recosturam minuto a minuto dentro dela” 

LA CULPA LA TIENE NIEMEYER / A ÚLTIMA TRILHA DE J.F.
Com: Difusa Fronte(i)ra e BiNeural-Monokultur (Audiotour Ficcional) e Tiago Novaes
SESC Consolação
De 19/11 a 1º/12. Segunda a sexta, 11h às 17h; Sábado, 9h às 12h. Saídas individuais a cada 10min. (o roteiro completo tem cerca de 60min.)
Grátis.

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One comment

  1. […] fascinado com esse projeto da Mostra SESC de Artes :: Circulações. É um percurso de uma hora no qual as pessoas são guiadas por um MP3 Player e caminham por […]



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